Uma introdução à serifa

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O universo da tipografia é dividido em basicamente duas grandes categorias estilísticas: fontes serifadas e fontes sem serifas. A grande maioria das fontes que existem podem ser catalogadas em um desses dois grupos (além das scripts, que não entram nessa classificação e das chamadas “semi serifs”, que são um híbrido entre os dois tipos). Então podemos dizer que esse sistema possui um único referencial, as serifas. 

Ou seja, observando bem, você vê que Helvetica, Futura, Arial e Gotham - para citar só alguns exemplos - são fontes classificadas não a partir de uma característica que elas possuem, mas de alguma coisa que está ausente nelas. Esse é o grupo das sans serif ou sem serifas (sans significa “sem” em latim).

Exemplo de fonte de serifada x sem serifas (Fontes: Alegreya | Alegreya Sans)

Mas aqui queremos falar do outro grupo, as serifadas. Podemos definir serifas como extensões das hastes das letras, geralmente alinhadas à linha de base. E o motivo pelo qual elas são o parâmetro de classificação das fontes (em oposição à classificação das que são apenas “sem”) é porque por muito tempo, na história da caligrafia e da tipografia, elas eram, na verdade, a única. 

Hoje pode parecer que as sem serifa são a forma padrão das letras, mas, na história da escrita elas são praticamente uma novidade recém-descoberta: a primeira fonte sem serifa da história foi criada apenas em 1816, por William Caslon IV. 

As letras com serifa, por outro lado, dominam o alfabeto romano desde o seu princípio, quando a forma corrente de escrita era o entalhamento em pedra. Por isso que o desenho mais tradicional das letras romanas é o encontrado na Coluna de Trajano (século I), em Roma, que praticamente define as proporções que usamos até hoje no alfabeto das maiúsculas. E, é claro, desde lá as serifas já estavam presentes. Não existe um consenso sobre o motivo pelo qual elas sempre marcaram a escrita romana. Alguns defendem que era um movimento natural do cinzel do letrista; outros, que elas já eram desenhadas propositalmente na pedra antes do entalhe. 

Coluna de Trajano

Fato é que elas dominaram nosso alfabeto por muitos séculos. E se as sem serifa podem ser, hoje em dia, campeãs em popularidade no que diz respeito a tipos display(para títulos), quando o assunto é livros e textos longos em geral, as serifadas ainda são hegemônicas. Muito provavelmente por conta dessa herança histórica, ainda consideramos as fontes com serifa mais legíveis para leituras extensas. 

Alguns tipógrafos defendem também que letras com serifa são mais legíveis porque as serifas naturalmente formam uma linha-base para o texto que serve de referência para o olho. Mas como legibilidade é costume, é mais plausível presumir que nossa predileção por serifas para leitura vem mesmo de um hábito histórico. 

Segundo o tipógrafo holandês Gerard Unger (1942-2018): “A questão sobre qual espécie básica de tipografia é a mais legível nunca foi resolvida de uma vez por todas e continua a exercitar as mentes até hoje. […] O texto sem serifa é perfeitamente legível, isso está fora de questão. Mas, de alguma maneira, as linhas ficam mais ajustadas com o texto serifado. As serifas parecem manter palavras e linhas juntas com maior facilidade.” (“Enquanto você lê”, Editora Estereográfica, 2016).

Ah, e se começamos falando que as serifas marcam o sistema mais importante de classificação tipográfica, não podemos esquecer que elas mesmas são divididas em categorias próprias. As principais são: 

  • Humanista (ou adnata) - Predominantes na tipografia até o século XVII, possuem uma transição suave entre a serifa e a haste da letra; 
  • Moderna (ou abrupta) - Surgem a partir do final do século XVIII, são geralmente finas e não possuem transição com a haste ou uma transição brusca. Marcantes de fontes com alto constraste (diferença grande de espessura entre os traços da letra); 
  • Slab(ou egípcia) - Retangulares e grossas, podem ter transição com a haste ou não. 
  • Ainda é possível encontrar outras classificações, como a serifa toscana, que é chanfrada e não alinhada completamente à linha de base. 
Acima: Humanista (esquerda); Moderna (direita) | Abaixo: Slab (esquerda); Toscana (direita)

Dá para ver como esse “pézinho” da letra  - que pode parecer apenas um detalhe - pode ser usado de inúmeras formas para definir o aspecto de um texto. E, mais importante, como ele conta boa parte da história do alfabeto que usamos.

Valter Vinícius Costa é formado em Comunicação pela UFRJ e designer da Plau. Apaixonado por tipografia e por escrever, neste blog ele une os dois interesses.
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