O que são ligaturas?

Até a revolução tecnológica que tornou tipos de metal obsoletos, “tipógrafo” era a palavra que designava o especialista em manejar esses tipos, compôr, diagramar e imprimir textos de qualquer natureza. Depois desse momento, a palavra não caiu completamente em desuso, mas foi bastante esvaziada do seu sentido original.

Manejar tipos, compôr, diagramar e imprimir textos deixou de ser uma tarefa especializada. Em última instância, todos viramos tipógrafos. Prova disso é que é bem possível que logo antes de começar a ler esse texto você tenha acionado um recurso tipográfico avançado: ligaturas. Ainda que sem saber o que elas são ou para que servem, todos nós as utilizamos várias vezes ao dia, seja digitando um texto no computador ou mandando uma mensagem no celular.

Ligaturas, na tipografia, são ligações entre dois ou mais caracteres. E elas podem acontecer de várias formas, sendo divididas em algumas categorias.


Ligaturas tipográficas

Contextual

Alguns encontros entre letras, a depender do desenho tipográfico, podem ser conflituosos. Ou seja, pode ser que uma letra esbarre na outra. A melhor forma de resolver isso é através de uma ligatura, a chamada contextual ou básica. Essa é a que usamos diariamente nos editores de texto. Para ela, a questão a questão a resolver é a legibilidade e a fluidez do texto. Nesse caso, a letra f é, de longe, a que mais arranja problema. Por ter um arco que se extende para além dele, o f às vezes esbarra na letra seguinte: ele pode ter um choque esquisito com o pingo de um i, com o topo de um l ou até mesmo com o arco de um outro f. Por isso, as ligaturas mais comuns na língua portuguesa são "fi” e “fl”.

Ligaturas contextuais | Tipografia: Tenez


Discricionária

Além de resolver problemas de legibilidade, ligaturas também podem servir simplesmente para deixar um texto mais bonito. Para isso, existem as ligaturas discricionárias ou opcionais. Na prática, essas ligaturas não são configuradas para acontecer automaticamente na escrita de um texto, mas têm que ser habilitadas manualmente pelo usuário da fonte, em programas de edição de texto e imagem.

A fonte Avant Garde Gothic é conhecida por ter várias ligaturas discricionárias disponíveis


Várias formas diferentes de ligaturas opcionais na fonte Couturier, do designer Diego Maldonado


Como o termo “opcionais” sugere, elas não possuem nenhuma regra de uso ou de desenho. A aplicação delas é puramente visual e confia por completo na criatividade do type designer e do usuário para serem usadas. Não existe um manual de quais ligaturas podem ou não existir. Qualquer par, trio ou grupo de caracteres é uma ligatura em potencial. Escolha dois ou mais caracteres do alfabeto, desenhe-os interagindo um com o outro e pronto: uma nova ligatura foi criada.


Ligatura entre um ponto de interrogação inicial e a letra Q maiúscula | Instagram, PampaType (tipografia sem título)


Herança caligráfica

Não podemos falar de ligaturas sem lembrar que muito antes dos aplicativos de mensagem, dos computadores e até muito antes da invenção de Gutenberg elas já existiam. Elas eram um movimento natural dos escribas bem anterior ao surgimento da imprensa. Unir letras, para eles, poderia servir como economia de espaço, de tempo ou como forma de compôr melhor o texto no papel.

Exercício de ligaturas em maiúsculas | Cláudio Gil

E a divisão entre contextuais e opcionais não existia. Todas eram um recurso prático do trabalho do calígrafo. Uma ligatura poderia significar uma escrita mais rápida, mais eficiente, uma ferramenta para planejar a mancha que o texto iria formar na página ou tudo isso ao mesmo tempo.

É assim que, com o nascimento da tipografia, as ligaturas aparecem tão naturalmente já nas primeiras fontes de metal. Nesse momento elas ainda mantinham a função de economizar tempo, além de compôr um texto mais bonito. É só imaginar que para o tipógrafo responsável pela composição do texto e que precisava selecionar cada letrinha uma por uma, era um alívio ter alguns tipos que serviam como dois caracteres em uma só peça.

Inclusive, uma boa forma para entender as ligaturas é sabendo que esse tipo de metal que continha dois caracteres juntos era chamado pelos tipógrafos como “logotipo”. A palavra que hoje usamos para designar uma marca ou símbolo de identidade de alguma instituição significa, essencialmente, uma composição de letras que interagem entre si.


Ligaturas ortográficas

Até agora descrevemos apenas as ligaturas puramente tipográficas, mas essas não são as únicas. Algumas ligaturas são chamadas de ortográficas, ou seja, representam um fonema ou significado específico na linguagem, não sendo apenas um artifício visual. É caso do caracter æ (a + e) no norueguês; do Œ (o + e) no francês e do ß (eszett: hoje considerado o fonema ss, mas surge como ligatura sz) no alemão.

Mais próximo da nossa realidade, o símbolo & (E comercial ou ampersand ) também é uma ligatura: no latim, a palavra “et” (significando a conjunção “e”) ao longo do tempo foi sendo transformada até tornar-se um só símbolo. Hoje não é comum encontrar um ampersand que visualmente lembre as letras E e t, mas a origem do desenho dele, naturalmente, era muito mais intuitiva.

E ainda mais próximo de nós: o C cedilha também é uma ligatura ortográfica. No espanhol antigo, o C acrescido de um pequeno z formava esse fonema (que eventualmente deixou de ser adotado no espanhol).


Ligaturas na prática

Faça o teste: próxima vez abrir um app de mensagens no celular, digite as letras “fi” e “fl” e note se elas conectam-se automaticamente. Como dissemos no começo do texto, as ligaturas contextuais são as mais fáceis de serem encontradas em situações comuns. Em interfaces digitais - como os apps - elas são particularmente acionadas porque melhoram a legibilidade em tamanhos pequenos de fonte.

Também, é claro, como você já deve estar imaginando, elas também são úteis em livros. Para compôr uma página sem ruídos, as ligaturas - especialmente as que envolvem a letra f - trabalham silenciosamente em textos longos. Já em livros que tentam dar ao texto um ar clássico, algumas ligaturas discricionárias podem ser usadas: especialmente nos encontros entre “ct” e “st”. Essas são conexões muito tradicionais na caligrafia e podem muito bem replicar uma estética renascentista, por exemplo. Mas são raras.



No próximo livro que abrir, tente encontrar algumas ligaturas. E caso a fonte do texto não utilize nenhuma, tente entender o porquê. Será que elas não são necessárias e todos os encontros entre letras no texto já são naturalmente fluidos? Será que algumas letras foram afastadas manualmente? Ou será que não utiliza-las foi uma escolha incorreta e o texto seria mais suave ou mais bonito com elas?

Bom, e como tudo na tipografia, você também pode escolher deixar esses detalhes passarem despercebidos enquanto realizam seu reservado, mas valioso trabalho.


Valter Vinícius Costa é formado em Comunicação pela UFRJ e designer da Plau. Apaixonado por tipografia e por escrever, neste blog ele une os dois interesses.
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