Como surgiu o ampersand?

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Conhecido no Brasil como ‘e’ comercial, o ampersand é um caractere especial do nosso sistema de escrita. Ao contrário das letras, que são símbolos exclusivamente fonéticos, o ampersand possui um significado próprio. Não importa onde seja aplicado, ele significa sempre uma adição; é substituto da conjunção ‘e’.

Até o século XIX, o ampersand era considerado a 27ª letra do alfabeto (nos países anglófonos). Não existe um evento definido que narre a queda do ampersand da categoria de letra, mas o fato é que ele sempre foi o primo estranho desse sistema.

Ampersand como 27ª do alfabeto em um livro de alfabetização | MSU Libraries

E – lamentavelmente para esse símbolo tão querido – outro fato é que faz todo sentido ele ter perdido seu status no alfabeto. É estranho pensar no ‘&’ como letra porque ele representa, na verdade, duas letras. O símbolo nada mais é do que uma ligatura entre as letras “et”, palavra que em latim significava ‘e’ (conjunção).

A origem mais aceita do ampersand – que só recebeu esse nome dezoito séculos depois – é uma inscrição encontrada numa parede da Pompeia (cidade do Império Romano soterrada pela erupção do Vesúvio – posteriormente descoberta preservada pelo mesmo material vulcânico que a destruiu).

Ampersand da Pompeia

Mas antes dele já existia outro símbolo para a palavra “et”.

O ampersand antes do ampersand

No século I a.C., o filósofo e figura pública da Roma Antiga Cícero encomendou a Marco Túlio Tiro (seu secretário, escriba pessoal e ex-escravo) um sistema de abreviações para o alfabeto latino, inspirado no conhecimento de Cícero sobre o alfabeto grego.

O sistema desenvolvido por Tiro possuía milhares de símbolos. Estes passaram a ser conhecidos como “notas tironianas”. O sistema faz, aliás, Tiro ser considerado “o pai da taquigrafia” (a escrita a partir de abreviações e símbolos).

Livros inteiros poderiam ser escritos com notas tironianas, que aceleravam a escrita e – para um leitor treinado – facilitavam a leitura. Estamos falando de um período onde o espaço entre palavras não era utilizado, então um símbolo que representava uma palavra inteira poderia ser um guia importante na leitura.

Apesar disso, com o passar dos anos, as notas tironianas foram sendo jogadas para as margens dos livros, ou seja, viraram um código para leitores fazerem anotações sobre os livros. Apenas o “et” sobreviveu por mais tempo.

“et” tironiano

Símbolos concorrentes

Segundo Keith Houston, o ampersand da Pompeia é uma espécie de filho bastardo do et tironiano. É bom lembrar que ambos nasceram nos limites do Império Romano. Os dois conviveram juntos por muito tempo, inclusive passando por um período onde o et tironiano era considerado o et minúsculo e o ampersand era seu equivalente maiúsculo.

Depois de perder muito da sua popularidade e assistir seu “filho bastardo” virar o preferido dos escribas, o símbolo de Tiro foi resgatado pela escrita gótica da Idade Média e tornou-se padrão nesse tipo de alfabeto. Como os primeiros livros impressos da Europa utilizavam fontes góticas, isso significa que o et de Tiro foi impresso antes do ampersand. Com a chegada do Renascimento e o retorno da escrita romana, no entanto, a soberania foi mais uma vez roubada desse símbolo.

Interpretação digital dos símbolos | À esquerda, o símbolo de Tiro; à direita, o ampersand da Pompeia

Caminhos tortuosos

Nenhuma das duas origens da ligatura “et” mostra um ampersand muito parecido com o que conhecemos hoje. Na verdade, o et tironiano tem seu desenvolvimento próprio; nunca chegou a parecer um ampersand. O que nos interessa aqui é o ampersand da Pompeia. O desenho original mostra um símbolo simplificado ao máximo, de forma que exige quase uma boa vontade para enxergar as letras "et”.

É só no século VII (lembrando que a erupção do Vesúvio que soterrou a Pompeia aconteceu no ano 79 do século I d.C., então esse desenho teria que ter sido feito no máximo até esse ano) que aparecem registros de manuscritos com o ampersand já parecido com a forma que conhecemos até hoje. Mas, mesmo depois disso, sua história visual é cheia de desvios e experimentações, ora passando por formas familiares para o nosso olhar de hoje, ora por formas irreconhecíveis.

A maior documentação feita até hoje sobre a evolução do ampersand foi publicada pelo tipógrafo lendário Jan Tschichold num livreto que, na sua edição em inglês, tem o título de “A brief history of the ampersand” [Uma breve história do ampersand – sem publicação no Brasil].

Parte da evolução do ampersand documentada por Jan Tschichold

Porém, apesar do registro visual ser riquíssimo, nem o próprio Tschichold consegue apontar exatamente o motivo de cada uma da evoluções, a não ser mesmo pela própria experimentação feita pelos escribas de cada época. Uma hipótese dele, no entanto, é digna de nota: Jan Tschichold acredita que, em algum momento, o ‘t’ em “et” tenha sido virado de cabeça para baixo e isso é o teria criado a forma que conhecemos do ampersand.

Pulando alguns séculos, chegamos no momento em que surge o ampersand itálico. Na documentação de Jan Tschichold, o primeiro registro de um ampersand itálico data de 1506. À época, a escrita itálica era uma escrita separada da romana. Alfabetos itálicos não eram usados juntos de alfabetos romanos para dar ênfase ao texto, como são usados hoje.

O ampersand itálico começa a dividir espaço com o ampersand romano | Jan Tschichold

Nesse contexto, o ampersand itálico desenvolveu-se não como uma adaptação do ampersand romano (&), mas como uma forma completamente diferente. O ampersand itálico é muito mais orgânico e fluído do que o romano, além de preservar mais as formas das letras “et”, que num ampersand romano são difíceis de visualizar. O ampersand itálico é uma presença rara nas fontes atuais, mas ainda presente naquelas que querem evocar um ar mais clássico e caligráfico da escrita. O mais comum é que as versões itálicas do ampersand tenham o desenho romano, só que oblíquos (inclinados).

Da esquerda para a direita, dois ampersands com desenhos itálicos e um ampersand de desenho romano, mas oblíquo | Fontes: Dupincel (esquerda e meio) e Motiva Sans (direita)

O nome

Lembra como o ampersand era considerado parte do alfabeto e ensinado no abcedário das escolas? Foi nessa época que ele ganhou seu nome. Até então, ele conhecido no inglês apenas como o caractere “and”. Mas quando as pessoas recitavam o alfabeto em voz alta era esquisito terminar com “X, Y, Z, and”, então ele passou a ser chamado de “per se and”, ou seja “conjunção ‘e’ por conta própria”. Com isso, o alfabeto falado em voz alta ficava assim: “X, Y, Z and per se and”. “And per se and” acabou virando uma espécie de gíria que, em algum momento, evoluiu para ampersand.

Designers <3 ampersand

Seja com ou sem status de letra, sendo ou não útil na comunicação escrita, enquanto houver designer no mundo o ampersand nunca será deixado para trás. Ele é o caractere xodó dessas pessoas e poucos tipógrafos teriam alguma ressalva à afirmação de que esse é o glifo mais bonito de uma fonte.

No português não existe um padrão de aplicação do ampersand mas, de maneira geral, entende-se que ele é bem-vindo em nomes de empresa e aplicações artísticas. Fica ao gosto do designer, o que significa que provavelmente ele é usado um pouquinho mais do que necessário, mas ainda assim menos do que merece.

Logotipo “Mother & Child”, um clássico do design desenhado por Herb Lubalin

Valter Vinícius Costa é formado em Comunicação pela UFRJ e designer da Plau. Apaixonado por tipografia e por escrever, neste blog ele une os dois interesses.
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