Breve história da manícula

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Praticamente todos os símbolos utilizados no alfabeto latino não possuem significado algum fora da comunicação verbal. Por exemplo, uma letra A só tem significação para nós porque nós conhecemos o fonema A e o fato de que ele serve para nos comunicarmos verbalmente. Do mesmo jeito que um ponto de interrogação só é reconhecido por nós porque sabemos que ele serve para construir uma pergunta. Esses símbolos até representavam uma imagem na sua origem histórica (essa, aliás, é uma longa conversa para outro texto), mas acabaram sendo desenvolvidos em formas de sentido próprio, não pictórico.

Existe, porém, uma exceção. Um símbolo que nasceu como pictórico e permanece pictórico até hoje: a manícula. Talvez você não a conheça por nome, mas certamente já a viu por aí. Ela que também é conhecida como “index”, “punho”, “indictorium” ou, simplesmente, “mão apontando”. Esse último não poderia ser mais didático. Manícula nada mais é do que a representação tipográfica de uma mão apontando. 

Fonte: Provenance Online Project / Rare Book Cataloging at Penn

Estima-se que as manículas começaram a ser popularizadas no século XII, mas tiveram seu auge no período do Renascimento (XIV - XVI). Elas surgem tanto como forma dos escribas ressaltarem passagens relevantes no livro como recurso dos próprios leitores, como forma fazerem (geralmente a lápis) anotações nos livros durante a leitura. 

Fonte: Provenance Online Project / Rare Book Cataloging at Penn
Fonte: Provenance Online Project / Rare Book Cataloging at Penn

Sim, parece esquisito que alguém pare sua leitura para desenhar uma mão na página - às vezes, até bem detalhada -, coisa que hoje resolveríamos com uma linha ou um asterisco. Mas era exatamente isso que acontecia. O pesquisador William Sherman, no artigo “Toward a history of the manicule” (“Em busca de uma história da manícula”, em tradução livre) sugere que é possível que “[…] depois da assinatura e do monograma, a manícula era o símbolo mais pessoal que um leitor poderia desenvolver e utilizar”. Ela era uma forma de distinguir os livros e povoar a marginália (margem do texto; espaço para anotações) com uma marca individual de quem o lia.

Fonte: Provenance Online Project / Rare Book Cataloging at Penn

É a partir desse hábito, então, que ela vira um símbolo tipográfico e passa a ser adotada amplamente em impressos, só que de forma muito mais contida do que as manículas manuscritas, mais criativas e orgânicas. Com a tipografia, a tal da “mão apontando” passa a ser usada como um sinal de pontuação, geralmente para indicar uma nova seção no livro. Mas também poderia ser usada como indicativo de um novo parágrafo ou mesmo como forma do editor ou escritor realçar um trecho importante. 

E mesmo com a “oficialização” das manículas pela tipografia, as manículas manuscritas continuaram existindo. Ou seja, era possível encontrar um mesmo livro com manículas impressas no texto e manículas desenhadas à mão pelo leitor nas margens do texto. Segundo Keith Houston, no livro Shady Characters: The Secret Life of Punctuation, Symbols, & Other Typographical Marks: The Secret Life of Punctuation, Symbols, and Other Typographical Marks, “Manículas impressas e manuscritas encontravam-se em lados opostos da batalha, cada uma utilizada por um campo diferente para defender suas próprias pautas”. 

No século XIX, as manículas perdem sua força nos livros (infelizmente, sem volta) e passam a virar elemento de sinalização, publicidade e cartazes. Dá para entender seu sucesso como elemento display(para títulos, não para textos) de comunicação: é uma ferramenta mecânica (tipográfica) mas que representa um elemento humano. Talvez seja, inclusive, o símbolo tipográfico mais universal. Afinal, quem não entende o que é uma mão apontando? 

Fonte: Centraal Museum Utrecht

Hoje em dia, as manículas ainda são encontradas em várias fontes tipográficas, mas seu uso já não é mais tão popular. Isso não significa, entretanto, que ela não tenha deixado legados. Aliás, você certamente usa sempre os netos da manícula: o cursor do mouse e os famosos emojis do dedinho apontando.

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Valter Vinícius Costa é formado em Comunicação pela UFRJ e designer da Plau. Apaixonado por tipografia e por escrever, neste blog ele une os dois interesses.
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