A história da(s) Garamond(s)

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Todo leitor tem uma boa chance de já ter se deparado alguma vez na vida com uma Garamond. Livros compostos com alguma versão dela não são objetos raros, embora as longas ascendentes e descendentes que geralmente elas carregam já não sejam mais tão populares. E quem se interessa por tipografia não só já deve ter lido livros que a utilizam, mas certamente já ouviu falar muito nesse nome. Afinal, é uma das fontes mais famosas da história. Certo?

Bom, mais ou menos. De fato, é um nome muito famoso na história do design. Mas não podemos afirmar que ele diz respeito a uma fonte. É muito comum referir-se a Garamond como uma família tipográfica, mas seria mais preciso dizer que esse é um estilo tipográfico. Um estilo bem específico, é verdade, mas ainda assim um estilo. O distribuidor de fontes mais famoso do mundo - o MyFonts -, por exemplo, tem no seu catálogo 49 famílias tipográficas que carregam “Garamond” no seu nome (além dos revivals de Garamond que não levam o nome, como a Sabon, do Jan Tschichold). Nenhuma delas é a Garamond definitiva ou a mais “certa”. Só a Adobe já desenvolveu duas Garamonds diferentes. Cada uma interpretando esse estilo de um jeito. Ou seja, essa é sempre a questão, interpretar.

Talvez agora você deva estar pensando: “Mas se as Garamonds atuais são baseadas na Garamond antiga, alguma deve ser mais fiel à original e, portanto, a mais ‘correta’, não?” Por alguns motivos, não é tão simples assim. O primeiro motivo é que não só hoje não existe uma Garamond definitiva, como nunca existiu uma Garamond definitiva.

Uma história tortuosa

A história é um pouquinho confusa. Antes de mais nada, precisamos saber quem é o tal do Garamond que dá nome a esse estilo que estamos discutindo. Claude Garamond (1480 - 1561) foi um  francês cortador de punções (ou, simplificando, um criador de fonte de metal). Hoje acredita-se que o nome dele era, na verdade, Claude Garamont. Em algum momento - não é possível definir exatamente qual - as fontes inspiradas no seu trabalho alteraram essa grafia e a versão alterada tornou-se padrão.


Em 1621, sessenta anos após a morte de Garamond, outro impressor Francês, o Jean Jannon, lançou um specimen de fontes inspiradas nas fontes de Garamond [Linotype]. Esse specimen foi redescoberto mais ou menos duzentos anos depois pela Imprimerie Nationale da França e as fontes foram atribuídas equivocadamente a Garamond. Os tipos de Jannon foram popularizados como “Garamond” e são, em grande parte, responsáveis pelos revivals que passaram a ser feitos entre os séculos XIX e XX. Só em 1927, através da pesquisadora Beatrice Warde (a mesma da taça de cristal!), é que esses tipos foram corretamente creditados. Mas, a essa altura, Garamond já era um nome muito mais conhecido do que Jannon.

Porém, os tipos de Jannon não são a única forma como o estilo Garamond ficou conhecido. As punções e matrizes originais de Claude Garamont foram também distribuídas pela Europa após a sua morte - algumas delas existem até hoje no museu Plantin-Moretus. Isso explica por que não podemos falar em um único desenho Garamond. Tanto os tipos de Jannon como os de Garamont são vários, unificados pelo estilo particular do mestre tipógrafo francês.


Specimen Egelnoff-Berner de tipos Garamond (Frankfurt, 1592) | Fonte: https://www.linotype.com/3474/garamond-font-feature.html


A questão dos revivals

Voltando para os revivals, existe outro motivo pelo qual não podemos falar em um revival definitivo, mesmo que Garamont só houvesse feito uma fonte na sua vida e que ela fosse a única que conhecêssemos, sem toda essa confusão de Jannon e specimens de nome trocado. Em tipografia, revival é, grosso modo, o ato de transportar um desenho tipográfico de uma tecnologia para outra. No caso das Garamonds, todas as originais eram tipos de metal. Estariam completamente indisponíveis para nosso uso hoje, não fossem seu revivals.

O problema é que essa passagem de uma tecnologia para outra carrega consigo decisões do designer que já a impedem de ser a reprodução perfeita do trabalho original. Por exemplo, pode parecer que o caminho mais óbvio para um revival é pegar os tipos de metal originais da fonte e desenhá-los igualzinho no computador, sem alterar nada. Mas, afinal, qual é a “verdadeira” fonte? Os tipos, as matrizes ou as punções que vieram antes delas? Digamos que sejam os tipos. De toda forma, os tipos foram feitos para serem impressos no papel e o “designer” sabia disso, criou o desenho pensando nisso. Então será que a intenção real da fonte não está no papel, ao invés de estar no tipo? E se esse é o caso, em qual impressão essa intenção melhor aparece? Todas essas são questões sem uma resposta certa, que cada designer pode responder de uma maneira diferente, chegando a resultados diferentes.

Sem contar na possiblidade de que o designer não queira fazer uma reprodução fiel do original, que ele ou ela queira deliberadamente inserir mudanças no desenho, ainda mantendo seu espírito. Esse revival pode ser igualmente válido ao que pretenda ser mais fiel.

Isso significa que não existe uma determinação histórica que indique exatamente o que é uma interpretação válida do gênero Garamond. Essa é muito mais uma questão de a/o designer contemporâneo usar bases históricas para realizar uma criação nova.

O que faz uma uma Garamond ser uma Garamond?

Segundo a classificação Vox/ATypI, as Garamonds são fontes do grupos das Garaldes. As Garaldes são as primeiras fontes pensadas para a produção em metal, ao contrário das suas contemporâneas humanistas, que ainda eram extensões do trabalho à pena de escribas.

Algumas características podemos definir como comuns a (quase) todas as Garamonds:

• Altura-x baixa, ou seja, ascendentes, descendentes e maiúsculas altas;

• Algum contraste entre traços finos e grossos, mas não muito acentuado;

• Eixo de contraste muito angulado (notado especialmente no [a];

• Terminal alongada do [a];

• Olho pequeno no [e] minúsculo;

Uma característica muito comum em Garamonds, mas que não podemos dizer que se repete é quase todas são as serifas irregulares, que simulam o aspecto de impressão.


Comparando Garamonds

Aqui vamos utilizar cinco Garamonds diferentes para notar a particularidade de cada uma delas:

Numa olhada rápida já vemos que elas são bastante diferentes entre si, mas ainda guardando muita familiaridade uma com a outra. De cara, podemos dizer que a Sabon, entre as cinco, é a interpretação mais moderna do estilo. Sua altura-x é bem equilibrada, seus traços são sólidos - sem irregularidades - e suas proporções mais contemporâneas. Por exemplo, seu [a] é significativamente mais largo do que das outras quatro versões.

Vemos também que a Cormorant Garamond é a mais caligráfica de todas, com terminais alongadas, típicas da pena de ponta chata.


Apesar de diferentes desenhos e proporções, o eixo das letras é muito parecido nas cinco versões analisadas

Dessa lista, a EB Garamond e a Garamond ATF são as que mais se utilizam de formas irregulares e arredondadas, simulando o aspecto de uma impressão onde a tinta se espalha pelo papel ou de tipos de metal já gastos, onde os caracteres perdem um pouco de seu refinamento. A Cormorant Garamond e a Garamond Premier, por outro lado, são as de mais alto contraste, sugerem ser mais delicadas. A Sabon é um equilíbrio desses atributos: contraste intermediário, traços bem definidos e descendente pequena. Para um uso editorial contemporâneo, por exemplo, a Sabon provavelmente seria a escolha menos arriscada.

Uma característica comum a todas: olho pequeno no [e]

Outro aspecto que é peculiar a cada uma das versões é a cor tipográfica. Em tipografia, “cor” tem um significado diferente do que estamos acostumados. Não diz respeito à variedade de cores num layout, mas sim à relação entre o preto e o branco das fontes.

Embora todas as fontes acima estejam no seu peso Regular e no mesmo tamanho em pontos, umas parecem mais “bold” que outras.  Essa é a cor em tipografia. E nas fontes que estamos analisando, claramente a Cormorant Garamond é a de cor mais clara, enquanto a Garamond ATF é a de cor mais escura. Faz todo sentido, se lembramos que ela tenta lembrar o aspecto da impressão. Ou seja, é como se já estivesse carregada de uma tinta que se espalhou pelo papel e, portanto, aumentou a proporção de preto sobre o branco.


De todas elas a Sabon é a única com serifa quadrada

Próxima vez que pensar em escolher uma Garamond para um projeto, lembre que esse nome carrega todo um universo tipográfico, com várias decisões a serem consideradas. E quando encontrar uma Garamond num livro, tente imaginar o motivo pelo qual o/a designer escolheu aquela versão específica!


Fontes

http://www.tipografos.net/tipos/garamond.html

https://www.linotype.com/3474/garamond-font-feature.html

https://flyachtsigns.com/barney-carroll-design/garamond/

https://flyachtsigns.com/barney-carroll-design/garamond/

http://typefoundry.blogspot.com/2011/04/garamond-or-garamont.html

https://www.linotype.com/3474/garamond-font-feature.html

https://www.linotype.com/414/claude-garamond.html

http://typefoundry.blogspot.com/2011/04/garamond-or-garamont.html

https://pampatype.com/blog/type-design-revivalism

Valter Vinícius Costa é formado em Comunicação pela UFRJ e designer da Plau. Apaixonado por tipografia e por escrever, neste blog ele une os dois interesses.
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